BA25 - Agriterra

ENTREVISTA 51 Que desafios enfrentamos no que respeita a competitividade da cadeia de valor agrícola e alimentar em Portugal? Na temática tecnológica, as soluções estão cá todas. Para sermos concretos, não precisamos de inventar mais nada. Precisamos é de aplicar o que temos na biotecnologia, na regeneração dos solos, na agricultura resiliente, nos subprodutos que advenham da perda no campo ou na transformação. Na verdade, a agricultura regenerativa pode ter mais densidade nutricional, ou seja, eu por quilo ou por litro estou a vender muito mais, um alimento muito mais denso do que na agricultura intensiva, convencional. Portanto, a indústria quer vender quilos. Nós queremos vender nutrição. Infelizmente há fatores de mercado muito fortes que vão ser difíceis de suplantar, como a legislação e fatores culturais. E esses são os maiores desafios que enfrentamos. Não se trata de um problema de falta de alimento. É óbvio que o real custo do alimento não é aquele que nós pagamos, porque se não houvesse a Common Agricultural Policy os alimentos seriam cinco vezes mais caros. Isto é assim em todo o mundo, a agricultura é subsidiada e se não fosse havia pior nutrição e mais doenças. Muitas vezes o que acontece são lobbies de grupos que se estão a proteger, sob o argumento de que a alimentação biológica nunca vai alimentar o mundo. O que é necessário é mais evidência. Ou seja, evidence-based, decision-making. Existe uma assimetria na distribuição de dividendos e essa é a questão que temos de endereçar se queremos ter uma agricultura mais sustentável, pois só conseguimos pagar bem se tivermos dinheiro, só conseguimos recrutar os melhores talentos se formos capazes de os atrair e para isso é preciso ter margens. Ao nível ambiental, 90% da agricultura mundial é ecologicamente nociva. Estamos num ponto de viragem absolutamente fundamental para a sobrevivência do ser humano e do planeta e temos de acelerar em muito a transição. E não estamos a conseguir fazê-lo à velocidade que necessitamos. Nesse contexto mundial, como perspetiva a autonomia alimentar da Europa? A autonomia e resiliência alimentar é um tema que preocupa muito a Europa. A alimentação tem o reconhecimento de elevadíssimos níveis qualitativos de segurança alimentar. Mas o problema é que, neste momento, não é autónoma. Por exemplo, falando de químicos de síntese, cerca de 40% dos fertilizantes são importados da Rússia. Ninguém fala nisto. A maior arma que podemos ter relativamente a uma guerra é o alimento. E, nesse aspeto, tanto a Rússia, como a Turquia e a China são países que podem determinar uma guerra com a Europa pela fome. O continente europeu está a importar cerca de 70% da proteína que consome, e essa é uma questão que preocupa muito a quem está nos sistemas agroalimentares. Os acordos com o Mercosul alimentam-nos de comida barata, mas estamos a esquecer várias coisas: os standards que estamos a provocar na intensificação da produção nos países de origem desta proteína animal e vegetal são absolutamente insustentáveis. Portanto, estamos a empobrecer os solos destas nações - Brasil, América do Sul, Chile, Argentina, África, etc. -, o que é uma hipocrisia do pior que pode existir. Segundo ponto, vamos causar fome nestes países. Terceiro ponto, estamos a importar alimento (e não em 10%, mas em 70% do que consumimos) muitas vezes com riscos fitossanitários, seja na origem, seja na forma como foi produzido e até, muitas vezes, na forma como foi conservado. E não há regulamentação. Um agricultor europeu não pode utilizar determinado tipo de químicos, mas um exportador para a Europa não tem proibições. E a Europa fecha os olhos. Portanto, por um lado, estamos a empobrecer a agricultura europeia, porque estamos a enriquecer os fatores de produção, mas, simultaneamente, estamos a deixar de produzir. Por outro, estamos a poluir e a empobrecer as nações que nos estão a fornecer alimentos. Este cocktail é explosivo. Quando os líderes, que são quem tem de iluminar o caminho, passam a um modus operandi hipócrita, eu diria que está tudo muito mal orientado. E as consequências não podem ser boas. Lamento a visão pessimista, mas a mensagem é esta. Se não encararmos os problemas de frente não os vamos resolver. n Há fatores de mercado muito fortes que vão ser difíceis de suplantar, como a legislação e fatores culturais 90% da agricultura mundial é ecologicamente nociva. Temos de acelerar em muito a transição

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