ENTREVISTA 50 Através do projeto ‘AmpliAqua’, numa mesma unidade, instalada na Nazaré, produzimos peixe, filete e subprodutos de peixe, que são nutrientes que nos permitem criar os chamados meios de cultura onde inoculamos e propagamos fungos e bactérias, que, por sua vez, têm funções específicas na solubilização de determinados macro ou micronutrientes, na proteção da cultura ou no stress abiótico, por exemplo. O Open Day integrou a cerimónia de entrega de prémios do programa Empowering Women in Agrifood, distinguindo mulheres empreendedoras no agroalimentar. Que importância tem para o setor a promoção da inovação liderada por mulheres e que impacto pode ter esta aposta na igualdade de género no futuro da agricultura e da indústria alimentar? A nível internacional, e não só português, o empreendedorismo no feminino é uma exceção, ou seja, menos de uma em cinco mulheres opta por iniciar um negócio, uma startup. As nações mais avançadas, onde existe mais capital, como os EUA ou Israel, estão mais evoluídos nesta matéria, até porque os próprios investidores privilegiam mais gestoras. Está demonstrado por estudos científicos que a forma como o cérebro humano masculino e feminino funcionam são diferentes, e a capacidade de uma mulher para gerir múltiplas variáveis ao mesmo tempo (de ser multitasking) é muito superior à de um homem. Portanto, há muitas vantagens: para além da agressividade, para além da diplomacia económica, para além da motivação de equipas, há a imensa eficiência que se perde se não tivermos mais mulheres a gerir negócios. E essa é uma motivação que nos impele a fazer este tipo de programas. Acredito que equipas balanceadas têm de ter idealmente 50% a 60% de mulheres. A nossa motivação, enquanto BGI, é que temos uma taxa de sucesso a nível de criação de startups superior a dois terços. Isto é um fenómeno anormal, pois na maior parte das startups geradas a nível mundial apenas 10% sobrevivem. E uma das razões, seguramente, pela qual nós teremos esta graça é por olharmos muito a inclusão de gestoras e para boas equipas com recursos financeiros razoáveis, que agregam tecnologia. Ou seja, o maior impacto destas iniciativas na agricultura e na indústria alimentar não advém necessariamente da componente tecnológica, mas da liderança e nomeadamente da liderança no feminino? Sim. Liderança e questões culturais, pois sabemos que os agricultores são extremamente resistentes e cautelosos. E têm razões para o ser, mas essa cautela tem o custo da inação. O agricultor tem pouco tempo, está focado nas atividades diárias do seu negócio e muitas vezes não vem a eventos, não faz networking, não procura novas soluções nem investe em conhecimento em rede. Os agricultores que estão em pilotos contam-se pelos dedos. Existem quatro grandes empresas que lideram 80% das sementes que são cultivadas, dos fatores de produção e das vendas de escala que são consolidadas (a Bayer, a Syngenta, a Corteva e a BASF). Isto é, de facto, dependemos excessivamente de uma concentração de mercado que não é boa. O Agrifood Open Day decorreu a 24 de novembro de 2025 no Unicorn Factory Lisboa.
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