ENTREVISTA 49 Há alguns anos criámos um laboratório colaborativo, o Food4Sustainability, que faz uma componente de inovação e investigação aplicada, e, portanto, foi um casamento perfeito no Agrifood Open Day, em que conseguimos trazer a perspetiva europeia do que está a ser feito a nível de políticas e vetores de investimento. O Biotech Alliance é um projeto bastante ambicioso que vai lançar dentro de dois anos uma Joint Undertakings (JU), que são projetos tipicamente na casa dos dois, três, quatro mil milhões de euros, com 50% de investimento privado e 50% de investimento realizado pela Comissão Europeia. Estamos a envolver parceiros nacionais, mas também a levar estes parceiros para uma lógica europeia. O evento focou-se nestas questões macro, de políticas públicas, mas também no estado-da-arte na área da biotecnologia. Realizámos ainda uma sessão dedicada à educação, à capacitação dos agricultores, dos empreendedores e de vários stakeholders da cadeia agroalimentar. Além de termos dado uma perspetiva de capacitação da microbiologia de solos, feita pelo Colab, terminámos com uma série de pitches de vários programas, nomeadamente do EWA - Empowering Women Entrepreneurs, que é um programa liderado pela BGI. Qual é o principal legado desta edição do Agrifood Open Day para a agricultura portuguesa no que toca, por exemplo, à biotecnologia e à resiliência dos sistemas agrícolas? Excelente pergunta. A biotecnologia ao serviço da agricultura é um tema relativamente novo. No entanto, já estão a ser feitos bastantes pilotos e iniciativas, mas que não são conhecidos. Através do Food4Sustainability, em que um dos pilares é a criação de conhecimento e a transferência desse conhecimento dos colabs para o mercado, nós trabalhamos, por exemplo, com o Clube de Produtores do Continente e com o Pingo Doce, onde juntamos uma centena de fornecedores de produtos frescos, hortícolas, produtores de bovinos, lácticos, etc. Diria que já há um conjunto de exceção de agricultores que estão muito avançados na temática da biotecnologia ao serviço da agricultura, nomeadamente, na inoculação de solos, biofertilizantes, bioestimulantes e, em alguns casos mais raros, num conjunto de práticas avançadas que vão para além do banal da agricultura regenerativa e que passam por maneio holístico ou introdução dos animais no campo para aumentar a matéria orgânica. Olhando para a realidade portuguesa, verificamos que há muito poucos produtores que estão muito avançados nas matérias de solo, de fertilidade, funcionalidade, biodisponibilidade dos micronutrientes e macronutrientes e proteção da cultura, através de técnicas biológicas, e há muitos que estão completamente obliviados e que não têm ainda estas ferramentas instituídas no seu dia- -a-dia de trabalho. Estamos a trabalhar estas temáticas há meia dúzia de anos, e tudo que é novidade traz complexidade, insegurança, incerteza, risco, e até, diga-se, aproveitamento por alguns grupos económicos que estão a vender produtos que não estão devidamente homologados ou certificados, e que não são eficazes. Também há players que sabemos que estão a vender produtos que não cumprem com as normativas europeias, por exemplo, a nível de densidade microbiana. Estamos a falar muitas vezes de micro-organismos vivos, que estão em meio líquido ou até liofilizados e que estão sujeitos a ciclos de temperatura e de armazenamento que não são ideais. Em Portugal, há ainda uma situação que agrava esta realidade e é que já não temos extensão territorial, o que significa que muitos produtores estão verdadeiramente reféns dos fornecedores de produtos, dos chamados fatores de produção, sejam eles fertilizantes, estimulantes ou pesticidas. Na prática, os produtores estão numa situação muito difícil, porque são aconselhados pelas empresas que lhes vendem produto e não têm oportunidade de ter um aconselhamento isento. Claro que aqueles que procuram conhecimento vão à procura das soluções. Existe esta ambivalência. Neste contexto, que desafios vislumbra para a adoção em larga escala de práticas de sustentabilidade e regeneração ecológica no nosso país? A tecnologia está lá. Estamos a trabalhar a economia circular e para nós não há resíduos, há nutrientes, que são mais ou menos difíceis de recuperar. Trata-se de subprodutos da aquacultura, da plantação em estufas, de agricultura vertical e da depuração de substratos líquidos ou de fertirrigação, fatores de crescimento para esta agricultura vertical. Também produzimos microalgas. Já não temos extensão territorial, o que significa que muitos produtores estão verdadeiramente reféns dos fornecedores de produtos, dos chamados fatores de produção
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