REPORTAGEM 20 em particular nas frutícolas e no olival, provocando quebras expressivas na produção”, sublinha. Apesar destas perdas, “o mercado não reagiu de forma proporcional à redução da oferta, o que agravou a quebra de rendimento dos agricultores e aumentou a fragilidade económica das explorações”, lamenta o secretário-geral da CONFAGRI. O segundo semestre “revelou-se especialmente dramático”, com os incêndios a devastarem instalações agrícolas, equipamentos, áreas florestais, pomares e milhares de hectares de superfícies forrageiras, detalha Nuno Serra. Assim, 2025 “ficará na memória como um ano de forte quebra de rendimentos e de profunda incerteza. Muitos agricultores enfrentaram dificuldades acrescidas, não apenas devido às perdas produtivas, mas também à imprevisibilidade no pagamento dos apoios prometidos, incluindo aqueles destinados a quem investiu no setor agrícola”, acusa o responsável. Quanto a perspetivas para 2026, “o ano antecipa-se particularmente desafiante para o setor agroalimentar, e não pelas melhores razões”, antevê o secretário-geral da CONFAGRI. Em primeiro lugar, “impõe-se a necessidade urgente de repor a atividade de centenas de agricultores e produtores pecuários severamente afetados por tempestades e outros fenómenos climáticos extremos”, alerta. Atendendo à escassa dotação financeira ainda disponível no PEPAC, “torna-se imprescindível que o Governo encontre soluções financeiras alternativas que permitam a rápida retoma da atividade, evitando o abandono das explorações”, conclui Nuno Serra. Por outro lado, 2026 “será decisivo na negociação da futura PAC pós2027, pois a Comissão Europeia (CE) apresentou uma proposta que é altamente lesiva para o setor e totalmente disruptiva em relação aos princípios basilares da mais comum e transversal das políticas europeias: a agrícola”, critica o responsável. Com uma redução estimada de cerca de 20% na dotação financeira, a nova proposta transfere para os Estados-Membros maior responsabilidade na definição dos apoios ao setor agrícola, provocando uma renacionalização que “irá gerar distorções no mercado interno e promover uma Europa a duas velocidades no setor agroalimentar”. Acresce ainda a criação de um Fundo Único que agrega investimentos em inovação, conhecimento, bioeconomia e gestão da água, colocando-os em concorrência direta com as verbas destinadas à coesão territorial. “A posição do Governo português nesta negociação será determinante para a competitividade e sustentabilidade do setor agrícola nacional”, explica. Por fim, destacam-se os acordos comerciais internacionais, que se revestem de enormes oportunidades, mas que - nos moldes atuais de negociação - são enormes bombas devastadoras para o mercado interno europeu, apresentando graves ameaças aos seus produtores. “Não é aceitável que, após anos de adaptação a exigentes metas ambientais impostas pela UE, os produtores europeus se vejam confrontados com importações provenientes de países terceiros que não cumprem os mesmos padrões”. Defender a equidade nas regras do comércio internacional será, em 2026, uma prioridade incontornável para o futuro do setor agroalimentar”, apela o secretário-geral da CONFAGRI. FENAREG - FEDERAÇÃO NACIONAL DE REGANTES DE PORTUGAL “O setor agrícola necessita de apoio urgente” José Núncio defende que “2025 foi um ano muito sui genenis”, fortemente condicionado pelas condições climáticas, porque choveu bastante, mas muito tarde (só a partir de fevereiro), o que atrasou a instalação das culturas de primavera-verão, que são as culturas de regadio. “Apesar de o ano ter sido relativamente favorável”, esta realidade teve impactos na colheita, “e o atraso na sementeira refletiu-se numa quebra de produção, especialmente nas principais culturas do regadio, como o milho e o arroz”, já que “as condições de solo excessivamente húmido impediram o trabalho atempado das terras”, explica o presidente da FENAREG. Para além dos constrangimentos produtivos, 2025 ficou marcado “por preços historicamente baixos nos cereais”. Esta conjugação de menores produções e preços de mercado reduzidos contribuiu para “a diminuição de áreas cultivadas”. Outras culturas, como o tomate, “também sofreram atrasos nas plantações e na colheita” e registam preços baixos. No olival e nos frutos secos, os preços são mais razoáveis, mas também se sentiram quebras associadas a fatores climáticos, como a insuficiência de frio na amêndoa, detalha. Para 2026, “temos uma certeza: falta de água não irá haver”, comenta José Núncio. Contudo, as recentes cheias agravadas pelos ventos fortes provocaram “muita destruição e danos graves” nas infraestruturas agrícolas, “sobretudo nas zonas de vale (Sado, Tejo, Mondego, Sorraia), “afetando margens de rios, valas de drenagem e redes de rega”, lamenta.
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