REPORTAGEM 19 CAP – CONFEDERAÇÃO DOS AGRICULTORES DE PORTUGAL “A maior preocupação é a renacionalização da PAC” Luís Mira traça um balanço do ano agrícola de 2025 “marcado por seca e dificuldades relacionadas com a água, bem como por instabilidade nos preços e incerteza associada a questões comerciais internacionais”, como as taxas impostas pelo mercado americano. Detalhando que se registaram boas produções em alguns setores, mas quebras noutros, como no vinho e no azeite, o secretário-geral da CAP considera que o aumento dos custos de produção foi um fator determinante. Em entrevista à Agriterra, o responsável alerta que os desafios para a agricultura em 2026 são muitos, desde logo pela forma negativa como o ano arrancou, “com os problemas climatéricos, com água muita intensa”, incluindo a tempestade Kristin. Destaca ainda as negociações da Política Agrícola Comum (PAC) como o principal desafio, sublinhando que as decisões tomadas agora serão determinantes para os próximos anos. “A atual proposta atual é muito má e vai obrigar-nos a uma pressão bastante grande”. Criticando a forte redução orçamental [na ordem dos 20%] e considerando que a junção das verbas da PAC com os fundos da Coesão, o Fundo Social Europeu, a Transição Justa e outros instrumentos europeus”é um mau princípio”, Luís Mira manifesta muita preocupação com “o fim da arquitetura da PAC e a sua renacionalização”, alertando que o setor agrícola europeu poderá perder peso político, num contexto em que representa apenas 4%. Quanto aos acordos comerciais em curso, nomeadamente o Mercosul, o secretário-geral reitera que a CAP é favorável a este acordo, desde logo porque a União Europeia (UE) “é um bloco comercial em que a balança do agroalimentar tem um excedente de 26 mil milhões de euros. Quando os EUA fecham a porta, temos de ir à procura de outros mercados”. Para Portugal, “trata-se de uma oportunidade estratégica”, dado o mercado de 210 milhões de consumidores de língua portuguesa, com uma proximidade cultural “que mais nenhum país europeu tem”, e que permite o reconhecimento dos rótulos em português e a replicação da proteção das denominações de origem. Considerando que o acordo traz mais garantias, incluindo mecanismos de salvaguarda e possibilidade de fiscalização dos métodos de produção, o responsável vê oportunidades no vinho, na fruta, no azeite e nos lácteos, mas alerta que é necessário “investir em promoção e trabalhar ativamente esses mercados”. Relativamente à questão das enormes exigências ambientais europeias e da eventual desigualdade face a estes novos parceiros comerciais, Luís Mira rejeita as críticas, argumentando que “as importações já se fazem e essas restrições existem” e que os grandes operadores internacionais “não aceitarão produtos que não cumpram esses padrões exigentes da UE. Nenhuma cadeia à escala europeia quer ter um produto que venha do Brasil ou da Argentina que seja feito com mão- -de-obra infantil ou com práticas proibidas na EU”, diz. Outro grande desafio do futuro é “a utilização das novas tecnologias que já estão disponíveis no setor agrícola: sensores, gestão de dados, inovação na pecuária extensiva, agricultura regenerativa e conhecimento avançado da biologia do solo. Defende que a tecnologia já existe, mas “falta aplicá- -la em maior escala e democratizar o seu acesso em todo o território”. O modelo agrícola evoluiu “de uma agricultura baseada na mecanização intensiva e uso massivo de adubos sintéticos” para práticas mais sustentáveis, o “que requer uma transição, uma adaptação e uma nova forma de ser agricultor”, conclui. CONFAGRI - CONFEDERAÇÃO NACIONAL DAS COOPERATIVAS AGRÍCOLAS E DO CRÉDITO AGRÍCOLA DE PORTUGAL “A equidade nas regras do comércio internacional será uma prioridade incontornável” O ano de 2025 “ficou marcado por uma acentuada imprevisibilidade climática”, considera também Nuno Serra. “Assistimos a períodos de temperaturas extremamente elevadas em fases críticas do ciclo produtivo, bem como a episódios de precipitação intensa e frio atípico em diversas regiões”. Estas oscilações “tiveram impactos significativos no desenvolvimento de várias culturas,
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