2026/1 25 DO CAMPO AO DIGITAL! Porque gerir bem é o primeiro passo para produzir melhor. wisecrop.com +351 220 047 508 Acompanhe, controle e decida com total confiança. Preço:11 € | Periodicidade: 5 edições por ano Fevereiro 2026
48 SUMÁRIO Edição, Redação e Propriedade INDUGLOBAL, UNIPESSOAL, LDA. Avenida Defensores de Chaves, 15, 3.º F 1000-109 Lisboa (Portugal) Telefone (+351) 215 935 154 E-mail: geral@interempresas.net NIF PT503623768 Gerente Aleix Torné Detentora do capital da empresa Grupo Interempresas Media, S.L. (100%) Diretora Gabriela Costa Equipa Editorial Gabriela Costa, Ángel Pérez, Alejandro de Vega Marketing e Publicidade Frederico Mascarenhas, Nuno Canelas redacao_agriterra@interempresas.net www.agriterra.pt Preço de cada exemplar 11 € (IVA incl.) Assinatura anual 55 € (IVA incl.) Registo da Editora 219962 Registo na ERC 127451 Déposito Legal 471809/20 Distribuição total +5.300 envios Distribuição digital a +4.200 profissionais. Tiragem +1.100 cópias em papel Edição Número 25 – Fevereiro de 2026 Estatuto Editorial disponível em www.agriterra.pt/EstatutoEditorial.asp Impressão e acabamento Lidergraf Rua do Galhano, n.º 15 4480-089 Vila do Conde, Portugal www.lidergraf.eu Media Partners: Os trabalhos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. É proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos editoriais desta revista sem a prévia autorização do editor. A redação da Agriterra adotou as regras do Novo Acordo Ortográfico. ATUALIDADE 4 EDITORIAL 5 58.ª AGRO regressa com ambição reforçada e foco na internacionalização 12 Produtores de Mirtilo discutem Inteligência Artificial na agricultura 14 Produtores de cereais apelam a uma PAC coesa e justa para os agricultores 16 Futuro à mercê da resiliência e capacidade de adaptação dos agricultores portugueses 18 Entrevista com Paulo Vaz, membro do Conselho de Administração da Exponor 28 FIMA revela inovação e transformação tecnológica do setor agrícola 30 Revysion: novas autorizações de produto 34 Balanço da campanha do olival 2025 e desafios para 2026: resiliência, competitividade e sustentabilidade certificada 36 Ilitia, Brunella e Florentia, as novas peças para a revolução varietal do olival 38 Feira Nacional de Olivicultura regressa a Moura em maio 40 Azeite de Trás-os-Montes pioneiro no Passaporte Digital do Produto em Portugal 42 OLIVUM lança primeiro Selo de Sustentabilidade para o azeite 44 MOSH e MOAH: reduzir o risco de contaminação é possível 46 Granfer: rega eficiente e sustentabilidade no Oeste com Wisecrop 52 Biotecnologia de precisão e serviços com drones: a nova fronteira da agricultura sustentável 54 ‘Volta a Portugal’ na defesa dos territórios rurais 56 BKT desenvolve pneus inteligentes para tratores de última geração 58 AgriTech acelera digitalização agrícola de pequenas empresas 60 Tendências económicas para 2026: um ano de transformação e resiliência industrial 62 Produção sustentável de pequenos frutos: boas práticas no perímetro de rega do Mira 66 Produtores florestais exigem medidas após danos da depressão Kristin 72 Sementes Vivas promove proteção da agrobiodiversidade portuguesa 74 Vendas de tratores caem nos mercados tradicionais e deslocam-se para novos polos 76 John Deere seleciona cinco empresas para o seu programa Startup Collaborator 2026 78 Organização Mundial da Propriedade Intelectual inclui o Agri Concept da Kubota entre os 100 melhores designs 80 Mercado de máquinas e reboques agrícolas em Portugal 81 Entrevista com Gonçalo Amorim, CEO da BGI Sustainable Ventures
4 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.AGRITERRA.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER O Governo aprovou um conjunto de medidas excecionais, num valor que pode chegar aos 2,5 mil milhões de euros, de apoio à agricultura, às empresas e aos profissionais afetados pela tempestade Kristin, que atingiu várias regiões do país na madrugada de 28 de janeiro. As decisões anunciadas após o Conselho de Ministros extraordinário realizado a 1 de fevereiro, visam “acelerar a reconstrução e garantir o restabelecimento das infraestruturas afetadas", de modo a repor a capacidade produtiva e a atividade económica e a preservar a estabilidade do emprego nos territórios que se encontram em situação de calamidade. No domínio agrícola e florestal, foi criado um apoio direto até dez mil euros para a reposição da capacidade produtiva das explorações afetadas, em regime semelhante ao aplicado nos incêndios florestais. Esta medida destina-se a agricultores e produtores florestais que registaram estragos nas suas explorações, permitindo apoiar a recuperação de culturas, de infraestruturas e de meios de produção. Logo a 28 de janeiro, a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) pediu ao Governo que avançasse com o levantamento dos prejuízos causados pela depressão Kristin e que as indemnizações e apoios chegasfoto: © Confederação Nacional da Agricultura (CNA) / DR. Depressão Kristin: Governo anuncia apoios excecionais à agricultura As medidas aprovadas em Conselho de Ministros extraordinário, realizado após a tempestade Kristin, traduzem-se num pacote de 2,5 mil milhões de euros que inclui apoio direto às explorações agrícolas até dez mil euros, linhas de crédito de 1,5 mil milhões de euros para empresas e moratórias fiscais e bancárias. sem rapidamente: “a CNA e as suas associadas nas diversas regiões do país reclamam ao Ministério da Agricultura o rápido levantamento dos prejuízos junto dos agricultores, a simplificação dos processos administrativos e que as indemnizações e os apoios se concretizem e cheguem de forma célere aos produtores”, lê-se em comunicado. Prolongando até ao dia 8 de fevereiro a situação de calamidade, de forma a manter em vigor os mecanismos excecionais de coordenação e resposta, o executivo aprovou ainda um vasto pacote de apoio às empresas, incluindo a criação de duas linhas de crédito, no âmbito do Banco Português de Fomento: uma linha de crédito à tesouraria para responder a necessidades de liquidez imediata, fundo de maneio e continuidade da atividade, no montante de 500 milhões de euros, com maturidade de cinco anos e carência de 12 meses, que deverá estar disponível dentro de uma semana; e uma linha de crédito ao investimento de recuperação e reconstrução, no montante de mil milhões de euros, com maturidade de dez anos e carência de 36 meses, que vai cobrir de forma imediata até 100% dos prejuízos validados (com possibilidade de subvenção até 10% após 36 meses, mediante o cumprimento de critérios de manutenção da atividade, do emprego e cobertura de seguros), que deverá ficar disponível dentro de três semanas. Para acelerar a recuperação económica e produtiva, foi autorizada a dispensa excecional de controlos administrativos prévios em obras de reconstrução públicas e privadas, aplicando-se um regime de controlo e responsabilização a posteriori. CNA reclama ajuda excecional a fundo perdido As empresas afetadas vão também beneficiar de isenção de contribuições para a Segurança Social durante seis meses e de um regime simplificado de lay-off por três meses, e de moratórias bancárias por 90 dias nos empréstimos relativos a habitação própria e permanente e a atividades empresariais, bem como de moratórias fiscais, com adiamento do cumprimento de obrigações tributárias até 30 de abril. O pacote inclui ainda medidas de apoio ao emprego e à formação, através do IEFP, como um incentivo financeiro extraordinário à manu-
tenção dos postos de trabalho; apoio extraordinário aos trabalhadores independentes; prioridade no acesso às medidas ativas de emprego e um plano extraordinário de qualificação e formação profissional. Justificando o seu apelo de apoios ao restabelecimento do potencial produtivo para fazer face aos prejuízos mais imediatos e para recuperar as explorações agroalimentares, a CNA recordou que os agricultores vão sofrer “avultadas perdas de rendimento” nos próximos meses e anos pela impossibilidade de comercialização da produção destruída ou afetada e, por isso, reclamou uma ajuda excecional a fundo perdido. Conforme apontou, importa ainda assegurar a limpeza e arranjo de caminhos de acesso a campos, instalações elétricas, valas e canais de rega. “Os agricultores, que já se encontram numa situação de fragilidade, com elevados custos de produção e perdas de rendimentos acumuladas, devido aos baixos preços pagos à produção, não podem suportar mais esta contrariedade”, sublinhou a confederação, acrescentando que são necessários seguros agrícolas públicos adequados ao setor. A região centro do país foi a mais afetada e o primeiro-ministro, Luís Montenegro anunciou a criação de uma Estrutura de Missão para a Reconstrução da região, com sede em Leiria, responsável pela coordenação dos apoios às populações, empresas e atividades económicas afetadas. Classificada pelo IPMA como ‘ciclogénese explosiva’, a depressão Kristin já havia colocado 60 concelhos em situação de calamidade. Devido à permanência de chuva forte com possibilidade de cheias, o governo decretou que esta declaração (o nível máximo de intervenção previsto na Lei de Bases da Proteção Civil) se alargou a mais nove concelhos. EDITORIAL O ano agrícola nacional arrancou da pior forma possível, com as violentas tempestades e cheias que assolaram o país a provocarem prejuízos de muitos milhões de euros em centenas de explorações agrícolas, devido à destruição de culturas, equipamentos e infraestruturas. Numa altura em que os agricultores recuperam ainda dos incêndios de 2025, que também devastaram instalações agrícolas e milhares de hectares de área florestal, a reconstrução profunda a que as tempestades obrigam – e para a qual os apoios diretos e imediatos disponibilizados pelo Governo se revelam manifestamente insuficientes, segundo a grande maioria das entidades representativas do setor -, vem agravar de forma preocupante os muitos desafios que já se avizinhavam para o setor, com destaque para as novas regras da PAC, com a esperada renacionalização dos fundos e a previsível redução orçamental em 20%. Na primeira edição de 2026 da Agriterra, apresentamos, em exclusivo, uma Grande Reportagem com a perspetiva dos dirigentes máximos das principais confederações e associações setoriais sobre a atual conjuntura na agricultura e os grandes reptos que só a resiliência, capacidade de adaptação e muito trabalho dos produtores no terreno poderão transformar em oportunidades neste ano agrícola. A não perder, as opiniões da CAP, CONFAGRI, FENAREG, COTR, AJAP, ANPROMIS, CEPAAL, Lusomorango, ISA e Agroges. Também em destaque neste número, o balanço da FIMA 2026, Feira Internacional de Maquinaria Agrícola que levou a Saragoça, em Espanha, perto de 188 mil visitantes e mais de 1.200 marcas expositoras de 35 países. A Agriterra foi Media Partner do evento e revela-lhe como inovação, sustentabilidade e renovação generacional são as premissas para a competitividade do setor. Por cá, associamo-nos, como habitualmente, ao Encontro Nacional de Produtores de Mirtilo, que leva a Inteligência Artificial em contexto agrícola a debate entre os produtores que acorrem ao evento em Santarém, nos dias 12 e 13 de março; e à AGRO BRAGA que, nesta edição que terá lugar de 26 a 29 de março, aposta na internacionalização. De leitura obrigatória é a Grande Entrevista com Gonçalo Amorim, CEO da BGI, que discorre da biotecnologia à autonomia alimentar, passando pela resiliência dos sistemas agrícolas, economia circular, agricultura regenerativa, dependência nos fatores de produção e papel da inovação e do empreendedorismo (incluindo no feminino) no agroalimentar. Não perca ainda os dossiers dedicados ao cultivo do olival e à agricultura digital que preparámos para si. Boa leitura. Ano agrícola desafiante exige resiliência e muito trabalho
6 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.AGRITERRA.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Tempestades no Douro: viticultores pedem apoio urgente A Associação dos Viticultores e da Agricultura Familiar Douriense (AVADOURIENSE) alertou para os prejuízos devastadores causados pelas tempestades Kristin e Leonard, que atingiram a Região Demarcada do Douro, e reclamou apoios diretos e imediatos do Governo para os agricultores e viticultores em risco de colapso. Em comunicado, a AVADOURIENSE descreve um cenário de destruição generalizada: "oliveiras arrancadas, vinhas destruídas, patamares desfeitos, muros derrubados, armazéns agrícolas e habitações danificados". Segundo a associação, estas perdas comprometem colheitas futuras e ameaçam o sustento de centenas de famílias da região. A entidade sublinha que pequenos e médios viticultores do Douro enfrentam há anos dificuldades estruturais, como baixos preços pagos à produção, custos crescentes e cortes nos quantitativos de “benefício”. Agora, acrescenta o comunicado, os fenómenos extremos intensificaram os prejuízos, sem que, até ao momento, haja uma resposta adequada do Estado. Prejuízos superiores a 775 milhões de euros exigem ação urgente do Estado Perante os recentes fenómenos meteorológicos extremos que causaram danos catastróficos nos setores agrícola e florestal, a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) alerta para a urgência de uma intervenção financeira do Estado que assegure apoio a todos os agricultores e produtores florestais afetados, independentemente das zonas declaradas em situação de calamidade. Os sucessivos fenómenos meteorológicos de extrema gravidade que atingiram Portugal no final de janeiro já causaram prejuízos superiores a 775 milhões de euros nos setores agrícola e florestal, valor que ainda poderá aumentar à medida que se conclui o levantamento dos danos. Diante da dimensão da catástrofe, a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) alerta que as verbas atualmente disponibilizadas pelos diferentes programas europeus são manifestamente insuficientes para responder às necessidades do país. A entidade considera urgente a mobilização de recursos financeiros do Estado português, através do Orçamento do Estado, para garantir uma resposta eficaz, solidária e abrangente. Segundo a CAP, esta intervenção deve alcançar todos os agricultores e produtores florestais afetados, e não apenas aqueles cujas propriedades estão localizadas em áreas abrangidas pela declaração de situação de calamidade. “É imprescindível assegurar uma resposta financeira robusta que permita cumprir dois objetivos fundamentais: repor a capacidade produtiva, estratégica e indispensável para o país, e ressarcir os prejuízos sofridos pelos muitos milhares de agricultores e produtores florestais em todo o território nacional”, afirma a entidade. A CAP já solicitou, com caráter de urgência, reuniões com o Governo e com os partidos com representação parlamentar, reforçando que a resposta à crise deve ser assumidamente nacional, baseada num compromisso político claro e na alocação plena e célere de recursos financeiros para proteger agricultores, produtores florestais e o futuro da produção nacional.
7 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.AGRITERRA.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Portugal Fresh pede ação rápida para ajudar afetados pela depressão Kristin A tempestade Kristin provocou inundações e destruição de culturas, causando prejuízos de milhões de euros no setor agroalimentar português e afetando centenas de agricultores. Para a Portugal Fresh, a verdadeira ameaça pode ainda estar por vir: a burocracia e a implementação de soluções inadequadas podem dificultar a recuperação, colocando em risco a produção nacional, a economia rural e os mercados de exportação. A depressão Kristin causou – e está ainda a causar – prejuízos de milhões de euros no setor agroalimentar português. A tempestade, que provocou inundações, alagamento de campos, destruição de culturas e infraestruturas, condenou a produção e o trabalho de centenas de agricultores. Apesar do cenário ser de terra arrasada, para a Portugal Fresh - Associação para a Promoção das Frutas, Legumes e Flores de Portugal, a verdadeira tempestade para muitos destes produtores pode ainda estar para vir: a da burocracia e a das soluções inadequadas. “Apoiar o setor das frutas, legumes e flores, bem como o setor agroalimentar e florestal em geral, não é apenas uma questão de solidariedade para com os agricultores: é uma decisão estratégica para o país”, afirma Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh. Neste sentido, e numa altura em que o Governo anunciou um conjunto de medidas para responder às consequências da depressão Kristin - entre as quais um parco apoio de até dez mil euros para a agricultura e floresta (quando não existe cobertura de seguro, sem necessidade de apresentação de documentação, com vistorias a cargo das CCDR e autarquias) - é importante garantir duas situações: que seja um apoio direto, a fundo perdido; e que chegue ao terreno em tempo útil. Temporal provoca prejuízos milionários e põe em risco pequenos frutos A passagem da depressão Kristin por Odemira deixou um rasto de destruição nas explorações agrícolas do concelho, com prejuízos provisórios superiores a dez milhões de euros e quebras de até 70% na capacidade produtiva de alguns produtores de pequenos frutos. O setor alerta para impactos na campanha atual e nas futuras, no emprego e nas exportações, e pede uma resposta “rápida, eficaz e justa” por parte do Governo. A depressão Kristin provocou danos severos em explorações agrícolas do concelho de Odemira, afetando de forma particular a produção de pequenos frutos. Segundo a Lusomorango, entre os cerca de 40 produtores associados já foram apurados prejuízos diretos provisórios superiores a dez milhões de euros. Em causa estão sobretudo estufas, infraestruturas agrícolas, sistemas de rega e equipamentos essenciais à produção, cuja destruição está a comprometer entre 50% e 70% da capacidade produtiva de várias explorações. Os números são ainda preliminares e poderão agravar-se, numa altura em que as previsões meteorológicas mantêm indicadores de instabilidade. “A destruição de infraestruturas compromete colheitas, contratos de exportação e postos de trabalho”, afirma Joel Vasconcelos, CEO da Lusomorango, sublinhando que está em causa “a capacidade produtiva imediata e futura de um setor estratégico para o país”. A Lusomorango defende uma resposta “rápida, eficaz e justa”, que inclua todos os produtores afetados pela depressão Kristin nos apoios extraordinários, com processos simplificados e execução célere, para evitar danos considerados potencialmente irreversíveis na capacidade produtiva e no tecido económico da região. Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh.
8 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.AGRITERRA.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER CAP pede plano de promoção para produtos portugueses no Mercosul A Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) defendeu que o Governo deve lançar “um grande plano de promoção” para os produtos portugueses aproveitarem o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, informou a Lusa. EIMA 2026: procura do espaço já ultrapassa a capacidade do recinto da feira Os primeiros dados apontam para uma edição recorde para a EIMA International, uma vez que em apenas dois meses já foi preenchida a área de exposição disponível no recinto ferial de Bolonha (Itália). A 47ª edição da EIMA International, a grande feira de máquinas agrícolas, arranca em 2026 com um dado contundente: a procura do espaço expositivo já ultrapassa a capacidade do recinto ferial de Bolonha, apenas dois meses após o início das inscrições, em 20 de novembro. O evento está programado para 10 a 14 de novembro, com uma mudança relevante no calendário: abrirá na terça-feira e encerrará no sábado à tarde. Diante do volume de inscrições, a equipa de gestão da Federação Italiana de Fabricantes de Máquinas Agrícolas (FederUnacoma), organizadora do evento, já está a trabalhar para ajustar a distribuição dos stands para acomodar o maior número possível de empresas interessadas. A feira pretende igualar ou superar os números de 2024, quando participaram 1.750 expositores e foram registados mais de 350 mil visitantes provenientes de 150 países. A EIMA manterá a sua estrutura habitual com 14 setores especializados e sete áreas temáticas: ‘Energy’, ‘Components’, ‘Idrotech’, ‘Digital’ e ‘Green’, às quais se juntam ‘EIMA Extend’ e ‘EIMA Campus’ como novidades de destaque. Também estão confirmadas as demonstrações dinâmicas ao ar livre e espaços emblemáticos como o REAL, dedicado à robótica e máquinas altamente automatizadas. A diretora-geral da FederUnacoma, Simona Rapastella, destacou que o evento evolui em termos de conteúdo, organização e serviços, com especial destaque para a EIMA Extend, voltada para instituições e atores de toda a cadeia agroindustrial. Além disso, a feira contará com o novo pavilhão 35, atualmente em construção pela BolognaFiere. Entre os destaques do programa, a cerimónia de entrega dos prémios de Inovações Técnicas será realizada no dia 1 de outubro no Palazzo Re Enzo, e os EIMA Social Awards acontecerão no dia 13 de novembro. Com cerca de 150 encontros previstos, o evento abordará inovação, políticas setoriais e o contexto económico e geopolítico. A edição é apresentada sob o lema ‘Design the Agricultural Future’ (Desenhe o Futuro da Agricultura). Álvaro Mendonça e Moura, presidente da CAP, disse à Lusa que o acordo oferece “vantagens claríssimas” e é “uma oportunidade” para setores como o vinho, azeite, fruta e queijos portugueses, mas que é necessário que o Governo apoie a promoção destes produtos no Mercosul. “O Governo tem que lançar um grande plano de promoção – estou a pensar sobretudo no vinho, que está a atravessar dificuldades importantes – destes produtos no Mercosul. Temos que saber aproveitar as oportunidades que vão surgir e este também é o desafio”, acrescentou, citado pela Lusa. Álvaro Mendonça e Moura concluiu que “o acordo com o Mercosul é globalmente positivo, mas exige atenção da nossa parte”, defendendo planos de promoção dos produtos portugueses nos países sul-americanos, nomeadamente o Brasil, no qual os produtores nacionais beneficiam de uma “grande relação afetiva”.
A INOVAÇÃO QUE CULTIVA O FUTURO
12 EVENTOS 58.ª AGRO regressa com ambição reforçada e foco na internacionalização A 58.ª edição da AGRO - Feira Internacional de Agricultura, Pecuária e Alimentação realiza-se de 26 a 29 de março de 2026, no Forum Braga, afirmando-se como a principal montra do setor no Norte de Portugal e uma das mais relevantes do Noroeste Peninsular. Com mais de 25 mil metros quadrados de área – 15 mil dos quais dedicados a expositores – o certame prepara-se para quatro dias intensos de negócios, conhecimento e experiências para profissionais e público em geral. Reconhecida como a única feira portuguesa integrada na Eurasco – European Federation of Agricultural Exhibitions and Show Organizers e acreditada pela UFI – The Global Association of the Exhibition Industry, a AGRO reforça, em 2026, a aposta na credibilidade internacional e na expansão da sua rede de contactos além-fronteiras. PROGRAMA DIVERSIFICADO E ESPAÇO INTERATIVO Sob o mote ‘Agro: Divulga, Informa e Experimenta’ e os lemas ‘Leite é Vida’ e ‘Da Terra à Mesa’, a edição deste ano conta com um espaço interativo no piso 0 do pavilhão, preparado para showcookings, demonstrações, degustações e workshops temáticos. A programação integra ainda conferências e seminários técnicos, demonstrações de maquinaria agrícola, áreas dedicadas à restauração com carne DOP, tasquinhas tradicionais, expositores de produtos regionais, hortícolas e materiais para jardim, bem
13 EVENTOS A Revista Agriterra é Media Partner da AGRO - Feira Internacional de Agricultura, Pecuária e Alimentação. como atividades pedagógicas destinadas aos mais jovens. A animação cultural, com música e dança popular, contribuirá para um ambiente de celebração das tradições e da vitalidade do mundo rural. A AGRO reúne um vasto leque de áreas, desde alfaias e máquinas agrícolas, agricultura biológica, energias renováveis e sistemas de rega, até horticultura, floricultura, genética animal, nutrição, sementes e serviços especializados. No segmento alimentar, estarão representados azeites, vinhos, queijos, conservas, doçaria, chocolates, cervejas artesanais e outros produtos regionais. O evento dirige-se a agricultores, produtores, importadores, armazenistas, revendedores, técnicos nacionais e estrangeiros, bem como ao público interessado em conhecer tendências, soluções e sabores do setor agroalimentar. RECORDES EM 2025 E METAS AMBICIOSAS PARA 2026 A edição anterior confirmou o crescimento sustentado da feira. A 57.ª AGRO atraiu cerca de 55 mil visitantes e registou um recorde de 230 expositores, representando aproximadamente 331 marcas. O programa incluiu cerca de 20 seminários, com perto de 900 participantes, e 28 showcookings dinamizados por entidades parceiras. O inquérito de satisfação revelou uma avaliação global de 4,49 em 5 e a taxa de ocupação atingiu os 100%, refletindo a forte procura por parte de empresas nacionais e internacionais. Para 2026, a organização pretende reforçar a presença de operadores estrangeiros, ampliar parcerias estratégicas e consolidar Braga como centro de referência do setor agrícola e agroalimentar. INFORMAÇÕES ÚTEIS A feira decorre nos seguintes horários: 26 de março (10h00–23h00), 27 e 28 de março (10h00–24h00) e 29 de março (10h00–20h00). Os bilhetes custam 3,5 euros para maiores de 11 anos, sendo gratuitos até aos 10. n
14 Produtores de Mirtilo discutem Inteligência Artificial na agricultura A Inteligência Artificial em contexto agrícola é um dos temas em destaque no 14º Encontro Nacional de Produtores de Mirtilo, que se realiza no Convento de São Francisco, em Santarém, nos próximos dias 12 e 13 de março. Gabriela Costa O programa, sob o tema geral ‘Caminhos para a Qualidade’, divide- -se em quatro sessões técnicas com especialistas de Portugal, Espanha, França, Países Baixos, Itália e Chile. Em cada sessão técnica serão indicados caminhos, tendo como base a orientação para a produção de mirtilo de elevada qualidade. A primeira sessão incidirá sobre os mercados e tendências de consumo, reforçando a necessidade de adaptação constante dos mirtilos de Portugal, aos requisitos, tendências e preferências do consumidor. A segunda contará com comunicações sobre nutrição, qualidade pós-colheita, mas também ferramentas de gestão, organização da produção e instrumentos de financiamento e investimento agrícola. Já a terceira sessão será dedicada à investigação e novas tecnologias no contexto agrícola. Finalmente, na quarta sessão, serão apresentados casos de integração de Inteligência Artificial no contexto agrícola, nomeadamente na criação de ferramentas de apoio à decisão, na agricultura de precisão e na identificação de pragas e doenças. O segundo dia do evento é dedicado a atividades práticas e visitas de campo numa exploração de mirtilos, estando previstas apresentações sobre agricultura regenerativa e equipamentos de seleção e classificação de mirtilo com recurso a Inteligência Artificial, bem como a demonstração de equipamentos de colheita mecânica, de seleção e embalamento e de veículos autónomos de apoio à agricultura. Além do ciclo de palestras e das demonstrações, o encontro integra uma área de expositores, atividades práticas, sessões técnicas e momentos de networking, num ambiente catalisador de conhecimento e oportunidades. Na sua 14ª edição, o Encontro Nacional de Produtores de Mirtilo volta a juntar centenas de produtores, mas também técnicos, fornecedores, consultores, investigadores e comercializadores, para abordar os desafios e o futuro desta cultura, "cujo interesse e relevância no setor tem crescido significativamente nos últimos anos", de acordo com a organização. Debatendo a agricultura moderna, o evento afirma-se como o ponto de encontro de referência para os profissionais da fileira do mirtilo em Portugal. Organizado pela Associação Nacional de Produtores de Mirtilo (ANPM), em parceria com o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) e com o Centro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional (COTHN), esta iniciativa conta com o apoio da Câmara Municipal de Santarém. Informações e inscrições em: https://encontro.anpm.pt/ n A Revista Agriterra é Media Partner do 14º Encontro Nacional de Produtores de Mirtilo.
16 EVENTOS Produtores de cereais apelam a uma PAC coesa e justa para os agricultores O XVI Congresso Nacional do Milho, organizado em paralelo com o 2.º Encontro das Culturas Cerealíferas, reuniu mais de 600 participantes, entre agricultores, políticos, académicos e estudantes, nos dias 11 e 12 de fevereiro, em Santarém. Em debate estiveram os temas mais estratégicos para o setor dos cereais e da agricultura em geral. O evento demonstrou, mais uma vez, a capacidade mobilizadora da ANPROMIS – Associação Nacional dos Produtores de Milho e Sorgo e dos seus associados, bem como das associações parceiras na organização, nomeadamente a ANPOC – Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais e a AOP – Associação de Orizicultores de Portugal. PRINCIPAIS CONCLUSÕES DO ENCONTRO DOS PRODUTORES DOS CEREAIS: • Cereais e soberania alimentar: falar de cereais em Portugal é falar de soberania alimentar, segurança do abastecimento, equilíbrio territorial e cadeias agroalimentares estruturantes — da produção animal à indústria transformadora. Portugal apresenta atualmente um grau muito reduzido de autoaprovisionamento em cereais, particularmente em milho e trigo, mantendo uma elevada dependência externa. Esta vulnerabilidade expõe o país a crises geopolíticas e flutuações de preços que não controla. Simultaneamente, verifica-se uma redução continuada das áreas de cereais praganosos e de milho, pressionadas pela baixa rentabilidade, pelo aumento dos custos de produção, pela concorrência de culturas permanentes e pela incerteza política quanto ao futuro da agricultura europeia. Esta conjugação de fatores constitui um risco estratégico e exige respostas claras e consistentes. Torna-se assim imperioso aumentar os valores atribuídos as Pagamentos Ligados para os Cereais. • Autoaprovisionamento e uso do território: Portugal necessita de implementar com urgência a Estratégia +Cereais. Não é aceitável normalizar níveis tão baixos de autoaprovisionamento. Os cereais desempenham um papel essencial nas rotações culturais, na sustentabilidade do regadio, na preservação da fertilidade dos solos e na fixação de agricultores. Abandoná-los é fragilizar estruturalmente o sistema agrícola nacional. • Acordos comerciais e concorrência desleal: o setor manifesta profunda preocupação relativamente ao acordo entre a União Europeia e o Mercosul. Os produO Ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, marcou presença na sessão de encerramento.
17 EVENTOS tores portugueses não estão contra o comércio internacional. Contudo, não podem aceitar concorrência desleal. Persistem diferenças significativas ao nível das matérias ativas autorizadas e das práticas fitossanitárias utilizadas em países terceiros, muitas das quais estão proibidas na União Europeia há longos anos, por razões ambientais e de saúde pública. Aos agricultores europeus são exigidos padrões cada vez mais rigorosos — e justamente — mas não pode ser admissível que se importem produtos que não cumprem essas mesmas regras. A sustentabilidade não pode ser um ónus interno e uma permissividade externa. Se a União Europeia pretende manter padrões elevados, esses padrões devem ser igualmente exigidos às importações. • Importações da Ucrânia: a manutenção dos contingentes de importação de cereais da Ucrânia sem aplicação de direitos aduaneiros constitui outra preocupação central. Reconhecendo plenamente o contexto excecional vivido pela Ucrânia e o princípio de solidariedade europeia, importa sublinhar que essa solidariedade não pode comprometer a viabilidade económica dos agricultores europeus. A ausência de mecanismos de salvaguarda eficazes tem provocado distorções de mercado, pressionando os preços à produção e agravando a fragilidade económica de milhares de produtores. A Europa precisa de instrumentos de equilíbrio e correção que protejam quem produz dentro do seu espaço regulatório. É, assim, imperioso atualizar os preços de intervenção para os cereais. • O futuro da PAC: o setor acompanha com apreensão a perspetiva de redução do financiamento da futura Política Agrícola Comum (PAC). A PAC não é apenas um instrumento de apoio ao rendimento. É um pilar de coesão territorial, estabilidade económica e segurança alimentar na União Europeia. Para culturas exigentes em investimento, tecnologia e gestão de risco — como o milho, os cereais praganosos e o arroz — uma PAC forte, previsível e devidamente financiada é absolutamente determinante para assegurar competitividade e continuidade produtiva. • ‘Água que Une’: a estratégia ‘Água que Une’, apresentada pelo Governo, representa uma visão estruturante para o futuro: ligação entre territórios, eficiência no uso da água e adaptação às alterações climáticas. O investimento em infraestruturas hídricas é investimento em soberania, resiliência e futuro. Num contexto de variabilidade climática crescente, é nos períodos de abundância que se deve preparar o país para os ciclos de escassez. A oportunidade política atualmente existente em torno da gestão da água não pode ser desperdiçada nem adiada. O país exige ação. • Uma Europa que resolve problemas: o congresso assinalou os 40 anos de adesão de Portugal à União Europeia. A opinião foi unânime: estamos melhor na UE do que fora dela. O futuro requer confiança e foco numa Europa eficaz em solucionar desafios. • Compromisso do setor: os produtores de cereais portugueses pedem regras justas, coerência política e condições para continuar a produzir. O setor quer produzir mais, melhor e de forma sustentável. Para isso, necessita de políticas que não penalizem quem cumpre, de uma Europa que proteja os seus agricultores e de um país que reconheça o valor estratégico da sua agricultura. A ANPROMIS, a ANPOC e a AOP reafirmam a sua disponibilidade para o diálogo institucional, para a construção de soluções e para a defesa firme dos produtores nacionais. Porque sem cereais não há soberania alimentar. E sem agricultores não há futuro! n Um painel de especialistas assinalou no congresso os 40 anos de adesão à UE.
REPORTAGEM 18 ANO AGRÍCOLA FUTURO À MERCÊ DA RESILIÊNCIA E CAPACIDADE DE ADAPTAÇÃO DOS AGRICULTORES PORTUGUESES Após as tempestades que assolaram o país, com prejuízos devastadores para a agricultura, os muitos desafios que já se avizinhavam para o setor, com os crescentes impactos das secas e cheias na produção das culturas e a previsível redução orçamental da PAC em 20%, fazem de 2026 um ano de incerteza e muito trabalho. O acordo comercial em curso com o Mercosul divide opiniões, como pode ler nesta reportagem exclusiva, em que os dirigentes máximos das principais confederações e associações setoriais partilham perspetivas para o ano agrícola. Gabriela Costa
REPORTAGEM 19 CAP – CONFEDERAÇÃO DOS AGRICULTORES DE PORTUGAL “A maior preocupação é a renacionalização da PAC” Luís Mira traça um balanço do ano agrícola de 2025 “marcado por seca e dificuldades relacionadas com a água, bem como por instabilidade nos preços e incerteza associada a questões comerciais internacionais”, como as taxas impostas pelo mercado americano. Detalhando que se registaram boas produções em alguns setores, mas quebras noutros, como no vinho e no azeite, o secretário-geral da CAP considera que o aumento dos custos de produção foi um fator determinante. Em entrevista à Agriterra, o responsável alerta que os desafios para a agricultura em 2026 são muitos, desde logo pela forma negativa como o ano arrancou, “com os problemas climatéricos, com água muita intensa”, incluindo a tempestade Kristin. Destaca ainda as negociações da Política Agrícola Comum (PAC) como o principal desafio, sublinhando que as decisões tomadas agora serão determinantes para os próximos anos. “A atual proposta atual é muito má e vai obrigar-nos a uma pressão bastante grande”. Criticando a forte redução orçamental [na ordem dos 20%] e considerando que a junção das verbas da PAC com os fundos da Coesão, o Fundo Social Europeu, a Transição Justa e outros instrumentos europeus”é um mau princípio”, Luís Mira manifesta muita preocupação com “o fim da arquitetura da PAC e a sua renacionalização”, alertando que o setor agrícola europeu poderá perder peso político, num contexto em que representa apenas 4%. Quanto aos acordos comerciais em curso, nomeadamente o Mercosul, o secretário-geral reitera que a CAP é favorável a este acordo, desde logo porque a União Europeia (UE) “é um bloco comercial em que a balança do agroalimentar tem um excedente de 26 mil milhões de euros. Quando os EUA fecham a porta, temos de ir à procura de outros mercados”. Para Portugal, “trata-se de uma oportunidade estratégica”, dado o mercado de 210 milhões de consumidores de língua portuguesa, com uma proximidade cultural “que mais nenhum país europeu tem”, e que permite o reconhecimento dos rótulos em português e a replicação da proteção das denominações de origem. Considerando que o acordo traz mais garantias, incluindo mecanismos de salvaguarda e possibilidade de fiscalização dos métodos de produção, o responsável vê oportunidades no vinho, na fruta, no azeite e nos lácteos, mas alerta que é necessário “investir em promoção e trabalhar ativamente esses mercados”. Relativamente à questão das enormes exigências ambientais europeias e da eventual desigualdade face a estes novos parceiros comerciais, Luís Mira rejeita as críticas, argumentando que “as importações já se fazem e essas restrições existem” e que os grandes operadores internacionais “não aceitarão produtos que não cumpram esses padrões exigentes da UE. Nenhuma cadeia à escala europeia quer ter um produto que venha do Brasil ou da Argentina que seja feito com mão- -de-obra infantil ou com práticas proibidas na EU”, diz. Outro grande desafio do futuro é “a utilização das novas tecnologias que já estão disponíveis no setor agrícola: sensores, gestão de dados, inovação na pecuária extensiva, agricultura regenerativa e conhecimento avançado da biologia do solo. Defende que a tecnologia já existe, mas “falta aplicá- -la em maior escala e democratizar o seu acesso em todo o território”. O modelo agrícola evoluiu “de uma agricultura baseada na mecanização intensiva e uso massivo de adubos sintéticos” para práticas mais sustentáveis, o “que requer uma transição, uma adaptação e uma nova forma de ser agricultor”, conclui. CONFAGRI - CONFEDERAÇÃO NACIONAL DAS COOPERATIVAS AGRÍCOLAS E DO CRÉDITO AGRÍCOLA DE PORTUGAL “A equidade nas regras do comércio internacional será uma prioridade incontornável” O ano de 2025 “ficou marcado por uma acentuada imprevisibilidade climática”, considera também Nuno Serra. “Assistimos a períodos de temperaturas extremamente elevadas em fases críticas do ciclo produtivo, bem como a episódios de precipitação intensa e frio atípico em diversas regiões”. Estas oscilações “tiveram impactos significativos no desenvolvimento de várias culturas,
REPORTAGEM 20 em particular nas frutícolas e no olival, provocando quebras expressivas na produção”, sublinha. Apesar destas perdas, “o mercado não reagiu de forma proporcional à redução da oferta, o que agravou a quebra de rendimento dos agricultores e aumentou a fragilidade económica das explorações”, lamenta o secretário-geral da CONFAGRI. O segundo semestre “revelou-se especialmente dramático”, com os incêndios a devastarem instalações agrícolas, equipamentos, áreas florestais, pomares e milhares de hectares de superfícies forrageiras, detalha Nuno Serra. Assim, 2025 “ficará na memória como um ano de forte quebra de rendimentos e de profunda incerteza. Muitos agricultores enfrentaram dificuldades acrescidas, não apenas devido às perdas produtivas, mas também à imprevisibilidade no pagamento dos apoios prometidos, incluindo aqueles destinados a quem investiu no setor agrícola”, acusa o responsável. Quanto a perspetivas para 2026, “o ano antecipa-se particularmente desafiante para o setor agroalimentar, e não pelas melhores razões”, antevê o secretário-geral da CONFAGRI. Em primeiro lugar, “impõe-se a necessidade urgente de repor a atividade de centenas de agricultores e produtores pecuários severamente afetados por tempestades e outros fenómenos climáticos extremos”, alerta. Atendendo à escassa dotação financeira ainda disponível no PEPAC, “torna-se imprescindível que o Governo encontre soluções financeiras alternativas que permitam a rápida retoma da atividade, evitando o abandono das explorações”, conclui Nuno Serra. Por outro lado, 2026 “será decisivo na negociação da futura PAC pós2027, pois a Comissão Europeia (CE) apresentou uma proposta que é altamente lesiva para o setor e totalmente disruptiva em relação aos princípios basilares da mais comum e transversal das políticas europeias: a agrícola”, critica o responsável. Com uma redução estimada de cerca de 20% na dotação financeira, a nova proposta transfere para os Estados-Membros maior responsabilidade na definição dos apoios ao setor agrícola, provocando uma renacionalização que “irá gerar distorções no mercado interno e promover uma Europa a duas velocidades no setor agroalimentar”. Acresce ainda a criação de um Fundo Único que agrega investimentos em inovação, conhecimento, bioeconomia e gestão da água, colocando-os em concorrência direta com as verbas destinadas à coesão territorial. “A posição do Governo português nesta negociação será determinante para a competitividade e sustentabilidade do setor agrícola nacional”, explica. Por fim, destacam-se os acordos comerciais internacionais, que se revestem de enormes oportunidades, mas que - nos moldes atuais de negociação - são enormes bombas devastadoras para o mercado interno europeu, apresentando graves ameaças aos seus produtores. “Não é aceitável que, após anos de adaptação a exigentes metas ambientais impostas pela UE, os produtores europeus se vejam confrontados com importações provenientes de países terceiros que não cumprem os mesmos padrões”. Defender a equidade nas regras do comércio internacional será, em 2026, uma prioridade incontornável para o futuro do setor agroalimentar”, apela o secretário-geral da CONFAGRI. FENAREG - FEDERAÇÃO NACIONAL DE REGANTES DE PORTUGAL “O setor agrícola necessita de apoio urgente” José Núncio defende que “2025 foi um ano muito sui genenis”, fortemente condicionado pelas condições climáticas, porque choveu bastante, mas muito tarde (só a partir de fevereiro), o que atrasou a instalação das culturas de primavera-verão, que são as culturas de regadio. “Apesar de o ano ter sido relativamente favorável”, esta realidade teve impactos na colheita, “e o atraso na sementeira refletiu-se numa quebra de produção, especialmente nas principais culturas do regadio, como o milho e o arroz”, já que “as condições de solo excessivamente húmido impediram o trabalho atempado das terras”, explica o presidente da FENAREG. Para além dos constrangimentos produtivos, 2025 ficou marcado “por preços historicamente baixos nos cereais”. Esta conjugação de menores produções e preços de mercado reduzidos contribuiu para “a diminuição de áreas cultivadas”. Outras culturas, como o tomate, “também sofreram atrasos nas plantações e na colheita” e registam preços baixos. No olival e nos frutos secos, os preços são mais razoáveis, mas também se sentiram quebras associadas a fatores climáticos, como a insuficiência de frio na amêndoa, detalha. Para 2026, “temos uma certeza: falta de água não irá haver”, comenta José Núncio. Contudo, as recentes cheias agravadas pelos ventos fortes provocaram “muita destruição e danos graves” nas infraestruturas agrícolas, “sobretudo nas zonas de vale (Sado, Tejo, Mondego, Sorraia), “afetando margens de rios, valas de drenagem e redes de rega”, lamenta.
REPORTAGEM 21 “Ainda é cedo para contabilizar, mas seguramente vamos ter atrasos nos trabalhos agrícolas e dificuldade em recuperar terrenos inundados ou cobertos por detritos e areias”, com “grandes prejuízos a registar no campo, que podem ascender a dezenas de milhões de euros”. Face a um “grau de destruição nas zonas ribeirinhas que não tem precedentes”, vai ser “um grande desafio para o Governo encontrar verbas para a reconstrução”, a qual “poderá prolongar-se por vários anos”, prevê o presidente da FENAREG, sublinhando: “o setor agrícola necessita de apoio urgente”. Acresce que “as expetativas de preços para 2026 indiciam a manutenção de valores baixos, o que dificulta a sustentabilidade da atividade agrícola”, conclui. COTR – CENTRO DE COMPETÊNCIAS PARA O REGADIO NACIONAL “Os agricultores têm, há muito tempo, grande capacidade de adaptação” No âmbito dos centros de competências, 2025 “foi um ano característico da transição de quadros comunitários”, afirma Gonçalo Morais Tristão. Para estes centros, dependentes de financiamento público, “foi um período de expectativa, e gorada, porque em 2025 não surgiu nada. Mas saiu há poucos dias a portaria e o aviso dos grupos operacionais, para projetos que vão ser financiados”, esclarece o presidente da direção do COTR. Neste contexto, “foi um ano difícil”, em que os centros de competências exerceram as suas atividades “já com alguns constrangimentos, porque os financiamentos acabaram, e estávamos à espera que surgissem novos, o que não aconteceu”. Contudo, “estão agora em cima da mesa as candidaturas aos grupos operacionais, até abril, e estamos a construir essas candidaturas”, reforça o responsável, traçando para 2026 uma perspetiva mais positiva, com condições mínimas para relançar projetos e reduzir a incerteza financeira. Quanto aos principais desafios que afetam todo o setor, Gonçalo Morais Tristão lamenta a violência recente dos fenómenos climáticos e defende que os agricultores são dos primeiros a sentir os impactos das alterações climáticas, “há muito tempo, e com grande capacidade de adaptação”. O desafio “é, cada vez mais, preparação e o setor tem trabalhado muito bem nesse sentido”. Não obstante, “certos fenómenos extremos são difíceis de precaver”, conclui. Sublinhando que estes eventos “devem servir de aprendizagem para preparar o futuro”, o responsável acredita que a agricultura “tem sabido adaptar-se e mitigar as consequências das alterações climáticas, muito com a ajuda das tecnologias”. O COTR trabalha há muitos anos o uso eficiente da água e a escassez de recursos hídricos, procurando aumentar a eficiência produtiva sem necessariamente aumentar o consumo de água. Este caminho “tem produzido resultados muitíssimo positivos e, portanto, a agricultura, com a ajuda deste tipo de organizações, vai continuar a fazer isso em 2026 e no futuro”. Relativamente à PAC, “o horizonte tem nuvens mais negras”, comenta o presidente do COTR. Considerando que o ponto de partida da proposta da CE é “muito mau, por desproteger o setor agrícola”, manifesta preocupação com a eventual redução de verbas e com a dependência do Orçamento do Estado, “o que poderá penalizar países com menor margem financeira, como Portugal”. Ainda que se trate de “um grande desafio”, acredita que o processo negocial nos próximos dois anos “poderá melhorar bastante a proposta final”. Quanto aos acordos comerciais, Gonçalo Morais Tristão assume-se “completamente a favor” dos eminentes acordos com o Mercosul e com a Índia, argumentando que, face ao fecho crescente do mercado norte-americano (o nosso mercado principal), a União Europeia deve “tentar construir mercados noutras regiões”. Perante a necessidade de proteger determinadas produções europeias, “sabemos que há cláusulas de salvaguarda, quotas e mecanismos de compensação”. O dirigente concorda que a regulamentação europeia “é particularmente exigente em matéria ambiental e sanitária, o que pode criar desequilíbrios concorrenciais”, mas defende que esses riscos podem e devem ser mitigados pelas cláusulas dos próprios acordos. "Defender a equidade nas regras do comércio internacional será, em 2026, uma prioridade incontornável" - CONFAGRI
REPORTAGEM 22 Por último, Gonçalo Morais Tristão aponta como desafio estratégico nacional a rápida implementação da estratégia ‘Água que Une’, “um projeto estruturante para o desenvolvimento económico do país, que não podemos atrasar”. AJAP – ASSOCIAÇÃO DOS JOVENS AGRICULTORES DE PORTUGAL "Avizinha-se um ano extremamente complicado” Na opinião de Firmino Cordeiro, o atual Governo enfrenta inúmeras dificuldades na área agrícola, desde logo por ter herdado um ministério “muito fragilizado e desarticulado”, com a perda de competências estruturais, por exemplo na área das florestas (com a saída do ICNF - Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas para o Ministério do Ambiente) e de uma parte da DGAV - Direção Geral de Alimentação e Veterinária. “A reorganização tem sido complexa e ainda não está totalmente concluída”, lamenta. O final do atual quadro comunitário, na prática, aconteceu em dezembro de 2025, tal a previsão de falta de meios para 2026 e o vazio que se estende a 2027, no arranque do novo ciclo (2028 – 2034), o que “torna estes dois anos particularmente complicados”. Para o diretor-geral da AJAP, em anteriores governos do PS, “a agricultura perdeu prioridade política, criou divisões internas no ministério e os meios financeiros do PRR ficaram muito aquém das expectativas do setor. Estas situações, infelizmente, tiveram impactos bastante negativos no setor”. O primeiro e o atual Governo de Luís Montenegro, “ao promoverem, na fase inicial, a junção do ministério, assumirem uma postura de maior proximidade em relação ao setor – a par da insistência do Ministro da Agricultura junto de Bruxelas, em vários assuntos, e de algum alívio desencadeado pelo Banco Português de Fomento - abriram uma nova esperança, obviamente com poucos meios, mas com a existência de um diálogo com o setor constante”, o que “é relevante”. Os fenómenos climáticos adversos registados nos últimos meses, “designadamente os incêndios de 2025 e o ‘comboio de tempestades’ ocorridas entre dezembro de 2025 e janeiro/ fevereiro de 2026, tiveram impacto significativo na atividade”. A este contexto acrescem fatores estruturais e políticos “que todos conhecemos: um PEPAC com recursos praticamente esgotados, incertezas quanto à futura PAC e um enquadramento europeu e internacional marcado por elevada instabilidade. Nesta conjuntura, Firmino Cordeiro defende que a maior retenção de água possível a montante em cursos de água pode ter um duplo efeito: “por um lado acaba por mitigar o efeito de cheias e, obviamente, permite disponibilizar mais água para todo o tipo de utilizações, nomeadamente para regadio”. E reafirma que a estratégia ‘Água que Une’ tem efetivamente de ser implementada. “Necessitamos ainda de um modelo de seguros agrícolas mais eficiente, que deve ser ressegurado em parte pela União Europeia, pelo BEI – Banco Europeu de Investimento e pelos Estados-membros. Seguros que, “em nosso entender, sempre que tenham bonificação no prémio deviam ser obrigatórios”, conclui. Acresce que a previsão da PAC para o próximo quadro (2028– 2034), poderá sofrer cortes até 20%, em relação aos valores do quadro que está em vigor. Para além deste facto ser extremamente preocupante para toda a Europa, na perspetiva de Firmino Cordeiro é necessária maior clareza na separação entre os fundos da PAC para a agricultura e os fundos para a coesão, pois a existência de um fundo único, como está proposto, e a eliminação do II Pilar da PAC (destinado ao investimento e ao desenvolvimento rural), vão penalizar e comprometer ainda mais o setor agrícola em Portugal no futuro. ANPROMIS – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS PRODUTORES DE MILHO E SORGO “É fundamental que haja respostas céleres e eficazes aos produtores” No setor do milho em Portugal, “2025 foi um ano particularmente exigente para os produtores”, comenta à Agriterra Jorge Neves. Segundo o presidente da ANPROMIS, “registámos uma quebra de produção estimada entre 15% e 20%, resultado da forte incidência do vírus do nanismo, de ataques significativos de javalis e de condições meteorológicas adversas que atrasaram as sementeiras e com-
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