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Mesa redonda ‘A Floresta que queremos: entre a resiliência e a competitividade’ reúne CAP e ANEFA na FIMAP 2026

Da prevenção à rentabilidade: debate da Agriterra enuncia desafios para o futuro da floresta

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A necessidade de reforçar a gestão ativa do território, reduzir os riscos de incêndio, modernizar as operações florestais e garantir rentabilidade aos proprietários esteve no centro da mesa redonda promovida pela revista Agriterra, a 22 de outubro, na FIMAP 2026, na Exponor (Porto). Um debate que cruzou as perspetivas empresarial, associativa e territorial sobre os caminhos para uma floresta mais resiliente e competitiva.

Painel de especialistas na mesa redonda organizada pela Revista Agriterra, nas FIMAP Talks, na Exponor (Porto)
Painel de especialistas na mesa redonda organizada pela Revista Agriterra, nas FIMAP Talks, na Exponor (Porto).

Como tornar a floresta portuguesa mais resiliente, produtiva, sustentável e economicamente viável? Foi esta a temática central da mesa redonda ‘A Floresta que queremos: entre a resiliência e a competitividade’, promovida pela revista Agriterra no âmbito das FIMAP Talks, na Exponor, em Matosinhos.

O encontro reuniu Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Pedro Serra Ramos, presidente da Associação Nacional de Empresas Florestais, Agrícolas e do Ambiente (ANEFA), e Pedro Rocha, consultor em Sustentabilidade Territorial e Relações Urbano-Rurais.

Ao longo do debate, a reflexão centrou-se nos principais desafios que condicionam a gestão florestal em Portugal: a prevenção dos incêndios e a adaptação às alterações climáticas, a capacidade de intervenção no terreno, a modernização tecnológica das operações e a necessidade de criar condições económicas para assegurar a continuidade da gestão.

Gestão ativa do território essencial para reduzir a vulnerabilidade da floresta

A prevenção dos incêndios e a resiliência dos espaços florestais constituíram o primeiro eixo temático do encontro.

Num contexto de alterações climáticas e de crescente pressão sobre os territórios rurais, a gestão florestal exige intervenções regulares, planeadas e ajustadas às características de cada território. A silvicultura, a gestão de combustível e o ordenamento da paisagem são dimensões fundamentais desta abordagem.

Num país onde a floresta é praticamente toda privada, “o menor risco de incêndio só se consegue com mais gestão e com um argumento que eu vou aqui repetir várias vezes: tem que ter dimensão económica”, garante Luís Mira. “Se não tivermos escala vai ser mais complicado e menos rentável combater e gerir bem [os fogos], e nalguns casos nem conseguimos aplicar toda a tecnologia que hoje temos à nossa disposição”, alerta o secretário geral da CAP.

O debate colocou em evidência a necessidade de olhar para a floresta de forma integrada, considerando a sua relação com a agricultura e com as restantes atividades económicas do mundo rural. A diversificação da paisagem, a redução da acumulação de combustível e a manutenção de territórios produtivos e cuidados são aspetos relevantes para reforçar a resiliência.

Destacando que o país perdeu cerca de 1.200 mil pessoas nos últimos 60 anos, e que mais de 70% de território está hoje classificado como de baixa densidade (onde vive menos de 20% da população, e com uma média de idades muito elevada), Pedro Rocha chamou a atenção para a importância de manter população nos territórios rurais, considerando que a sua vitalidade é uma condição para assegurar a gestão da paisagem. Como salientou, “para mantermos um território vivo, cuidado, precisamos de ter pessoas lá”.

Esta abordagem implica também ultrapassar constrangimentos estruturais, como a fragmentação da propriedade, as dificuldades de mobilização dos proprietários e a falta de continuidade de algumas intervenções. A prevenção não depende apenas de operações pontuais: exige capacidade de planeamento, recursos e modelos de gestão que permitam manter o território acompanhado ao longo do tempo.

Luís Mira, secretário-geral da CAP - Confederação dos Agricultores de Portugal
Luís Mira, secretário-geral da CAP - Confederação dos Agricultores de Portugal.

Mecanização, tecnologia e eficiência para aumentar a produtividade

A segunda ronda foi dedicada à modernização das operações florestais, com destaque para a mecanização, a digitalização, a disponibilidade de mão de obra e a redução dos custos de intervenção.

A capacidade de executar trabalhos florestais com eficiência é determinante para a gestão ativa do território. No entanto, o investimento em equipamentos e tecnologia tem de ser acompanhado por condições que permitam rentabilizar os meios disponíveis e assegurar a sua utilização.

Pedro Serra Ramos identificou a falta de continuidade do trabalho como um dos principais entraves ao investimento das empresas. Apesar da evolução tecnológica do setor, a ausência de operações regulares de plantação e gestão dificulta a rentabilização dos equipamentos. Na sua síntese, “a questão é mesmo ter trabalho” e isso “tem reflexos na capacidade de investimento das empresas”: a principal dificuldade é rentabilizar “uma máquina que custa 500 mil euros, e que não pode estar muitas horas parada”, detalha.

A dimensão e a dispersão das parcelas, a disponibilidade de operadores qualificados e a necessidade de reforçar as competências técnicas são outros fatores que condicionam a modernização do setor.

Neste contexto, a digitalização e a utilização de dados abrem oportunidades para melhorar o planeamento, apoiar a tomada de decisão e tornar as operações mais eficientes. A estratégia passa por transformar essas oportunidades em soluções aplicáveis à realidade das empresas e dos proprietários florestais.

O acesso aos serviços especializados, a formação profissional e os instrumentos de apoio ao investimento são igualmente fundamentais para aproximar a inovação das necessidades concretas do terreno.

Pedro Serra Ramos, presidente da ANEFA - Associação Nacional de Empresas Florestais, Agrícolas e do Ambiente

Pedro Serra Ramos, presidente da ANEFA - Associação Nacional de Empresas Florestais, Agrícolas e do Ambiente.

Sustentabilidade ambiental exige viabilidade económica

A terceira dimensão do debate centrou-se na rentabilidade da atividade florestal, na valorização dos produtos e recursos da floresta e no futuro da propriedade.

Uma gestão florestal continuada exige investimento. Para que os proprietários tenham condições para cuidar das suas propriedades, é necessário que a atividade possa gerar rendimento e que os custos associados à gestão sejam compatíveis com os benefícios económicos obtidos.

Para Pedro Serra Ramos, a valorização da produção é determinante para assegurar a continuidade da gestão. O presidente da ANEFA chamou a atenção para a dificuldade em conciliar o aumento dos custos de produção com a remuneração dos produtos florestais, considerando incompreensível que Portugal tenha “indústrias que não mexem no preço da madeira há 20 anos”.

As limitações na garantia de rentabilidade estão, naturalmente, ligadas à escala económica da gestão. Como sublinhou Luís Mira, a prevenção e a capacidade de intervenção dependem de uma organização que permita reforçar a capacidade operacional. Reiterando que a gestão florestal tem de “ter dimensão económica”, o dirigente explicou que “houve um incentivo durante 20 anos para os produtores apostarem na certificação florestal, mas a indústria deitou fora todo esse trabalho e agora a mensagem que passa é que não vale a pena certificar, porque isso não é valorizado”.

Esta premissa coloca em evidência a importância de promover a produção florestal e de reforçar a ligação entre produtores, prestadores de serviços e indústria transformadora. A valorização da biomassa, a utilização eficiente dos recursos e o desenvolvimento de novas oportunidades de negócio podem contribuir para diversificar as fontes de rendimento da fileira.

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É premente valorizar a produção florestal e reforçar a ligação entre produtores, prestadores de serviços e indústria transformadora

O debate organizado pela Agriterra integrou a programação das FIMAP Talks, no âmbito da FIMAP 2026, na Exponor (Porto)
O debate organizado pela Agriterra integrou a programação das FIMAP Talks, no âmbito da FIMAP 2026, na Exponor (Porto).

Paralelamente, os serviços prestados pelos ecossistemas, incluindo a contribuição para o sequestro de carbono, a conservação da biodiversidade e a proteção dos recursos naturais, representam dimensões relevantes da sustentabilidade florestal. O desafio consiste em encontrar formas de reconhecer estes benefícios, complementando o rendimento da produção.

Pedro Rocha defendeu que esta valorização deve evidenciar o contributo efetivo dos proprietários para a sociedade, distinguindo a remuneração pelos serviços ambientais de uma lógica de apoio financeiro sem contrapartida explícita. Como afirmou, “não devemos dar um subsídio a um produtor. Devemos pagar-lhe pelo serviço que ele presta”.

A organização dos proprietários, a cooperação entre agentes e a criação de modelos económicos adequados às características dos territórios rurais assumem, por isso, particular importância. Sem condições para remunerar o investimento e assegurar a continuidade das intervenções, torna-se mais difícil concretizar os objetivos ambientais e de prevenção.

Pedro Rocha, consultor em Sustentabilidade Territorial e Relações Urbano-Rurais e Gabriela Costa, diretora da Revista Agriterra...
Pedro Rocha, consultor em Sustentabilidade Territorial e Relações Urbano-Rurais e Gabriela Costa, diretora da Revista Agriterra.

Um desafio que exige articulação entre os diferentes agentes

A diversidade de perspetivas reunidas pela Agriterra permitiu enquadrar o futuro da floresta a partir de diferentes dimensões: a representação dos agricultores e dos interesses do mundo rural, a realidade operacional das empresas florestais e a experiência de desenvolvimento de modelos económicos para os territórios rurais.

Os especialistas concluiram que a transformação da floresta portuguesa não depende de uma única medida. Exige articulação entre políticas públicas, capacidade empresarial, conhecimento técnico, investimento e envolvimento dos proprietários.

A complexa problemática que atravessou os três eixos do debate permanece, assim, central: como criar condições para que a floresta seja gerida de forma continuada, resista melhor aos riscos, aumente a sua produtividade e assegure retorno económico a quem nela investe?

Acompanhe, na próxima edição da revista, a reportagem completa, com vídeo, sobre as temáticas analisadas na mesa-redonda ‘A Floresta que queremos: entre a resiliência e a competitividade’.

A mesa-redonda dedicada à gestão florestal organizada pela Agriterra integrou a programação das FIMAP Talks, no âmbito da FIMAP 2026, que decorreu de 21 a 24 de outubro, na Exponor (Porto). A iniciativa foi dinamizada no contexto dos Encontros Profissionais B2B da InduGlobal, do Grupo Interempresas, com o suporte técnico da Fakoy, e contou com o apoio institucional da ANEFA e o patrocínio da TerraGes e do Grupo Efcis.

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